“Livros Restantes” coloca Barra da Lagoa na telona. Por Zeca Pires

Artigo de Zeca Pires, cineasta

Assisti ao filme “Livros Restantes”, da cineasta catarinense Márcia Paraíso com Denise Fraga e grande elenco local. Sentei nas primeiras filas, como sempre faço, para assistir ao filme antes de todos os demais espectadores, como sempre brinca comigo o cineasta Sylvio Back (88 anos) que também prefere as cadeiras próximas à tela.

Sentar atrás só nas comédias, porque quem ri por último, ri melhor. Brincadeiras à parte, me apressei a escrever estas linhas, não como crítico, que não sou, mas como cinéfilo, artista e admirador de coisas boas.

A direção segura de Márcia Paraíso consegue agregar Denise Fraga e Augusto Madeira contracenando com Vanderléia Will (Dona Bilica), Renato Turnes, Manuela Campagna, Andréa Buzato, Joana dos Santos, Marcinho Gonçalves, Severo Cruz, Paulo Vasilescu, Valdir Agostinho e Adriano Brito, estrelas que você pode encontrar nas ruas e nos palcos da Ilha.

Posso dizer, que os atores locais conseguem devolver uma bola de muita qualidade para as experientes Denise Fraga e Augusto Madeira, que entram no jogo com todo as suas habilidades e posso dizer também com a generosidade e humildade dignas dos melhores talentos e capaz de empolgar e tirar o melhor dos nossos artistas.

Neste ponto tenho que sublinhar, o desempenho da Dona Bilica – com uma convincente maquiagem de envelhecimento – que interpreta a mãe de Ana (Denise Fraga) com a altivez de uma matriarca sintonizada com as novas gerações representadas pela própria Ana, seu irmão Sérgio (Renato Turnes) e a neta Sofia (Manuela Campagna).

O tio é Severo Cruz em sua exuberância e a cunhada (Joana dos Santos) que roubam a cena no almoço de despedida de Ana para Portugal e, surpreendentemente, acontece a revelação da pedofilia do tio, o malandro representado por Severo.

Barra da Lagoa é o principal cenário da trama – cuja temática e as imagens estão sincronizadas na poesia. A água é um elemento estrutural, junto com a literatura, no arcabouço dramático do roteiro.

No mar, na chuva e no rio, a presença da água retrata a aura da feminilidade da Pachamama, “Mãe do Mundo”, marcantes também na força das atrizes Denise Fraga, Vanderléia Will, Manuela Campagna, Andréa Buzato e Joana dos Santos.

Posso dizer ainda que o cinema de Márcia Paraíso, Cíntia Bittar, Maria Emília de Azevedo e de Lelette Couto despontam nacionalmente com a essência de um olhar feminino catarinense.

Digo catarinense no bom sentido da diversidade, da generosidade, do colorido e não como o adjetivo ruim que a maioria dos políticos e os extremistas de direita teimam em queimar nossa imagem para o Brasil. Mas, isso são outros quinhentos.

E como não se pode falar em Barra da Lagoa sem a música e a presença de Valdir Agostinho, não dá prá falar da música da Ilha sem ouvir Zininho e Dazaranha. Todos eles estão no filme. “Deixa a porta aberta” de Zininho, cantada pela sambista Maria Helena e também numa versão harmoniosa na chegada de Ana em Lisboa, lembrando um fado português, encaixa como uma luva na temática do filme.

Não dei a sinopse e nem spoiler, quem quiser saber a história do filme que prestigie esta bela película de nosso cine. Aliás, listei inúmeros motivos para quem gosta desta Ilha prestigiar “Livros Restantes”. O filme está em cartaz na maioria dos cinemas da cidade. Ao meu ver, uma obrigação assisti-lo!

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